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24
jan

Minha prece por Mariana e Brumadinho

O rompimento da barragem de Brumadinho faz um ano, Mariana, 4 anos.

Ainda estamos sob efeito da dor, da destruição, da escassez de informação e do elevado conflito.

A pergunta que em mim não cala é: o que estamos aprendendo com isso?

Sem dúvida, algumas instituições tiveram um aprimoramento de suas técnicas de socorro, atendimento emergencial, leis foram alteradas, enfim, apesar da tragédia houve um aprimoramento.

Eu quero crer, e do fundo da minha alma, eu preciso acreditar que as pessoas mais envolvidas estão aprendendo muito sobre gestão de conflitos. No entanto, como sociedade também impactada por estes dois episódios, penso que não estamos tendo a oportunidade de aprender tudo que podíamos. Como mediadora de conflitos, especializada em conflitos socioambientais, interessada e estudiosa dos dois casos, confesso que estou perdida!

Sigo a Vale, o MPMG, MPF, a Defensoria Pública, o MAB, a Comissão Pastoral da Terra, os informes da Renova, as reuniões do Comitê Interfederativo, as informações do Governo de Minas Gerais e até agora eu não consegui entender, de verdade, o que está sendo feito efetivamente no que tange aos conflitos de Mariana e Brumadinho.

Cada instituição diz uma coisa, apresenta um dado, fala uma versão sobre o mesmo assunto. Enquanto numa publicação é dito que os acordos avançaram, na outra dizem que ainda tem negociações paradas. Essa semana os veículos fazem reportagens especiais sobre o acidente em Brumadinho. Homenagem às vítimas e à dor que ainda não sarou, se é que desse jeito um dia vai sarar. As imagens veiculadas, as histórias contadas ainda são as mesmas de um ano atrás. Somos inundados pela lama novamente e parece que dela, nunca saímos.

Penso que para além do conflito material, do impacto, das mortes, do dano, ainda temos que viver com o conflito de informações e versões.

Quem, no meio desse emaranhado de informações desencontradas tem credibilidade suficiente para validar as informações repassadas por tantos?

Já sabemos quem tem a responsabilidade pelo que aconteceu, sabemos seus nomes, endereços e CPFs e CNPJs. Cabe agora a Justiça Brasileira o andamento do devido processo legal para que sejam devidamente punidos.

No entanto, sentenças não resolvem conflitos. Para resolver conflitos, antes de tudo, é preciso ter informações fidedignas, reais. O primeiro ponto de convergência tem que ser a informação, mas ainda estamos longe disso. Os dados tem que ser consensados entre as partes que mesmo não sendo os responsáveis pelos danos, são os responsáveis por sua resolução.

Mas para validar estas informações, é preciso haver diálogo, o que na minha opinião, de onde vejo e observo, não tem existido. As pessoas dentro das instituições se degladiam e os atingidos pelo rompimento das duas barragens são novamente atingidos por uma avalanche de brigas, indiferenças e resistências. Conflitos não se resolvem quando trabalhamos pelo seu crescimento.

Estamos perdemos nossa capacidade de ouvir. Queremos muito falar, queremos ser ouvidos, queremos colonizar o outro com as nossas narrativas. Temos suposto muito e sabido pouco.

A dor dos efetivamente atingidos não tem espaço nas reuniões onde se discute, exatamente,  como os atingidos serão atendidos. Paradoxo absolutamente enlouquecedor para a minha lógica e inteligência.

Perdemos a beleza do diálogo, da conversa cara a cara, do argumento e contra argumento, da informação embasada em análises aprofundadas que buscam a solução e não a polêmica. Perdemos a beleza da dança, do movimento e contra movimento, fomos para as trincheiras das nossas inferências com nosso grupo de apoio e pensamos dominar a verdade absoluta.

Dominar verdadeiramente um tema exige ponderação de vários fatores, várias vozes, interferências, conhecimentos, linguagens e consequências. É necessário ouvir o outro lado e realmente tentar compreender seu ponto de vista, seus interesses e necessidades ao invés de buscarmos constantemente as evidências que confirmam a nossa tese contrária.

Permanecer na vista a partir de um ponto empobrece nossa capacidade de análise. A estrada para a resolução de um conflito complexo numa é uma linha reta, é sempre cheia de idas e vindas. É caminhada que exige tempo, aprofundamento, relação entre pessoas, decepções e conquistas, avanços e retrocessos. Processo. Tempo. Paciência. Conflito.

Como sair desse círculo viciado e miserável que nos coloca, depois de tanto tempo numa situação de ainda mais desamparo?

Deixar de temer os conflitos, aprender a manejá-los com análise, critério, escuta, ponderação e diálogo cuidadoso é o desafio, o desafio do tão propagado caminho do meio, da famosa sustentabilidade. Será que ela só está nos discursos das instituições e não na sua prática? O diálogo não é o primeiro passo para a sustentabilidade, inclusive das nossas relações? Para que o diálogo aconteça, não precisamos saber, verdadeiramente, o que nos une nesse nó do conflito?

Como tem sido o processo de diálogo entre as instituições e com os atingidos? O que deu certo, o que deu errado? Por que não criaram uma outra Fundação Renova para lidar com o problema em Brumadinho? O que tem acontecido na Fundação Renova que nos trás a sensação de que nada está sendo feito?

O que nós, profissionais de mediação, de compliance, de comunicação, de meio ambiente, de direito, de engenharia, de biologia, de psicologia, de medicina, de geologia e tantas outras áreas que trabalhamos em empresas, instituições, órgãos governamentais temos para aprender no manejo dos conflitos, na prevenção de tragédias podemos aprender com este conflito? Precisamos aprender para não repetir nossos erros, precisamos aprender se quisermos perpetuar nossas vidas.

Há de haver generosidade para compartilhar conhecimentos e buscar, juntos, a solução. Há de haver humildade para admitir que não existe só uma verdade. Há de haver humanidade para lidar com o conflito humano. Há de haver conhecimento para ser compartilhado e multiplicado e assim, aquecer nossos corações e almas ainda desolados com as tragédias que permanecem.

Essa é a minha prece por Mariana e Brumadinho.

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